Hera: Mito e Arquétipo / Hera: Myth and Archetype

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HERA: MITO GREGO EM RESUMO

Hera foi a filha mais velha de Cronos e Reia (há relatos que dizem ser Hestia) e uma das irmãs de Zeus. Segundo os poemas homéricos, ela teria sido criada por Tétis, antes de Zeus ter usurpado o trono de Cronos, depois se tornou a esposa do irmão, sem o conhecimento dos pais. Essa versão é diversamente modificada em outras tradições.

Os poemas homéricos só relatam que após o casamento com Zeus ela foi tratada pelos deuses do Olimpo com a mesma reverência que tratavam seu marido. O próprio Zeus, de acordo com Homero, ouvia seus conselhos, e contava seus segredos a ela, em vez de contar para outros deuses. Hera também se achava no direito de censurar Zeus quando ele consultava os outros sem ela saber.

Sua personalidade, como descrita por Homero, não é do tipo muito amável, e suas principais características são a inveja, obstinação e uma disposição a brigas, que às vezes fazia com que o seu próprio marido tremesse. Daí surgem conflitos frequentes entre Hera e Zeus; e em uma ocasião Hera, em conjunto com Poseidon e Atena, colocam Zeus preso. Zeus não só a ameaçou, mas também bateu nela quando ele foi capaz de sair das nuvens, com as mãos acorrentadas e com duas bigornas suspensas de seus pés. Hera sempre fica assustada com suas ameaças e cede quando ele está com raiva. Então, quando ela é incapaz de obter os seus fins de qualquer outra forma, ela recorre à astúcia e a intrigas.

A descendência legítima de sua união com Zeus são Ares (o deus da guerra), Hebe (deusa da juventude), Éris (a deusa da discórdia) e Ilícia (deusa do parto). Hera tinha ciúmes de Zeus ter dado à luz Atena sem recorrer a ela (por partenogênese já que Atena nasceu da própria cabeça de Zeus), então ela deu luz a Hefesto, sem ele, embora em algumas histórias ele seja filho dela com Zeus. Hera ficou revoltada com a feiura de Hefesto e o jogou do monte Olimpo, por isso Hefesto é manco.

Em meados do século XIX, estudiosos começaram a pensar sobre a possibilidade de que Hera era originalmente a deusa de um povo matriarcal, presumivelmente que habitava a Grécia antes dos helenos. Sob esse ponto de vista, a sua atividade como deusa do matrimônio estabelecia o vínculo patriarcal de sua própria subordinação: sua resistência às conquistas de Zeus é apresentada como “ciúme” de Hera, o principal tema das anedotas literárias que reduzem seu antigo culto.

ARQUÉTIPO DE
HERA

Jean Bolen escreveu seu livro “As Deusas e a Mulher” em 1984, em que faz um estudo sobre os arquétipos femininos e propõe a divisão dos sete arquétipos em três categorias (leia mais sobre isso aqui). Hera é classificada por Bolen como uma deusa vulnerável, ou seja, que possui uma relação forte com o outro e por isso é vulnerável a ele. Então, neste primeiro capítulo falarei sobre o arquétipo de Hera segundo Bolen, de forma resumida.

Hera é um arquétipo extremamente ligado aos padrões heteronormativos, portanto mesmo se falamos frequentemente em energia feminina e masculina, no caso de Hera está extremamente ligado ao homem e a mulher biologicamente e as expectativas sociais desses gêneros em nosso mundo contemporâneo, mas principalmente em 1984 quando Bolen escreveu seu livro.

Hera e casamento

As pessoas tipo Hera são ligadas ao poder e ao casamento de maneira idealizada, não lhes bastam relações informais. Todo o ritual da cerimônia de casamento é imprescindível. Sua lealdade e devoção ao marido é imensurável. São dependentes dele, e por isso tendem a transferir a culpa deles para outrem quando traídas. Se sofrem uma perda ou uma traição, normalmente têm uma reação de pura raiva vingativa, normalmente culpando a outra e nunca seu marido idealizado. Muitas vezes, o homem que escolhe casar com uma mulher tipo Hera é aquele que deseja ter uma mulher para apresentar socialmente, o casamento se torna apenas uma fachada. Por maior que seja sua insatisfação no casamento a mulher tipo Hera dificilmente pedirá o divórcio.

Hera e filhos

Hera não será o tipo de mulher que terá filhos por identificar-se com a maternidade, mas sim para cumprir uma função social dentro do casamento. Os filhos ficarão sempre em segundo plano, pois Hera é o tipo de mãe que não intervém entre os filhos e o marido, mas se o fizer, estará ao lado do marido, independente de ele estar certo ou errado. Por isso, não sofrem a síndrome do “ninho vazio”, mas a separação ou a viuvez são seus maiores martírios, muitas vezes, insuperáveis.

Deméter é um arquétipo que sofre da síndrome do “ninho vazio”, se você quiser saber mais sobre isso e sobre esse arquétipo, clique aqui.

Hera e vida profissional

A prioridade das pessoas ligadas a esse arquétipo não é o campo profissional. Os estudos e o trabalho são algo secundário para estas mulheres/homens, exceto se isto possa repercutir positivamente para seu cônjuge. Costumam ter poucas amigas e se afastam assim que conseguem um relacionamento estável. Ela terá amizades pertinentes ao casal, mas nada íntimo, viverá apenas para o social. Desprezará as pessoas, principalmente as mulheres solteiras ou separadas, que são vistas ou como perigosas ao seu casamento ou apenas não são importantes pois não possuem um marido.

As pessoas tipo Afrodite são desprezadas por Hera por normalmente não quererem seguir as regras do casamento, clique aqui para saber mais sobre Afrodite.

Aprendendo com Hera

Algumas mulheres precisam aprender a cultivar Hera para que possam desfrutar de relacionamentos mais íntegros e significativos, principalmente aquelas que já se consolidaram na profissão e/ou já tiveram muitos romances. Elas precisarão aprender conscientemente a cultivar uma ligação ou a predisposição a uma. Algumas terão que desistir da imagem de um homem idealizado e aceitar o homem possível.

Como lidar com o excesso do arquétipo de Hera

Para diminuir o poder dessa deusa é conveniente que a mulher resistisse a se casar até estar certa do que quer e estar mais madura para perceber que pode fazer uma escolha errada por projetar características irreais num homem. Deve cultivar outros interesses, controlar sua fúria interior transformando essa energia numa atividade criativa, artística ou mental (artesã, trabalhar com argila, pintura ou escrita).

O PODER E
CIÚMES DE HERA

Em 1987 dois escritores americanos Jennifer W. e Roger W. escreveram o livro “A Deusa Interior“. Neste livro eles, assim como Jean Bolen, também se utilizam dos arquétipos das deusas de Jung. Porém, esses autores têm uma abordagem um pouco diferente. Nesse capítulo falarei resumidamente sobre o arquétipo de Hera segundo os Woolger.

PODER

Hera é um arquétipo que tem sede por poder. Ela gostaria de estar sentada na cadeira do patriarca (Zeus) mas não pode, então senta ao lado dele. Homero descreveu Hera como ciumenta e “louca”, pois para o patriarcado não há espaço para a mulher desejar uma posição de poder. Satirizar sobre as lutas da mulher é uma maneira de aliviar não só o medo que os homens sentem por mulheres que quererem uma posição de poder, mas também é uma maneira de aliviar a culpa que sentem por negar o poder à mulher.

Hera tinha bons motivos para ter raiva e ciúmes de Zeus, pois quase todos seus filhos foram concebidos fora do casamento. Zeus é o símbolo máximo do mundo patriarcal: macho, fálico e supremo; sua virilidade é retratada como inesgotável. Isso simbolizava a afirmação do poder patriarcal sobre o matriarcado. O casamento de Hera e Zeus tinha a função de representar a fusão das culturas patriarcais (que estavam vindo dos povos do Norte) com a cultura matriarcal existente na Grécia Antiga.

“As ambições de Hera são vistas como uma ameaça à supremacia patriarcal e reprimidas muitas vezes de maneira brutal.”

A Deusa Interior – Jennifer W. e Roger W.

A pessoa Hera quer ter acesso ao animus (segundo Jung animus é a parte masculina na psique da mulher) dela, mas é negada à isso pela sociedade patriarcal. Ela não quer ser submissa, ela quer mandar.

“Com o seu lado fálico frustrado, ela exige uma intimidade quase simbiótica e isso significa algo intolerável para o homem, pois trás a tona os medos ancestrais da mãe devoradora. A penetração da mulher na psique do seu marido causa calafrios no homem.”

A Deusa Interior – Jennifer W. e Roger W.
CIÚMES

A pessoa Hera escolhe pelo status e abre mão do seu próprio poder, já que não há espaço na sociedade patriarcal para que uma mulher possa ocupar essa posição. Ela se sente excluída pela sociedade e ao mesmo tempo odeia o marido por tê-la também excluído da ação.

O ciúmes de Hera é sobre o poder que Zeus possui e ela deseja:

“Não é da sua (de Zeus) licenciosidade sexual que ela tem ciúmes, mas sobretudo da sua promiscuidade política, de sua capacidade de estar envolvido em tantas coisas diferentes, da sua liberdade em movimentar-se e de abrir seu pensamento a tantos conselheiros de ambos os sexos. Em outras palavras, Hera sente ciúmes da liberdade que seu marido tem de ser uma força propulsora e uma pessoa chave no mundo.”

A Deusa Interior – Jennifer W. e Roger W.
CASAMENTO

No início do patriarcado (e até hoje), o casamento como instituição tinha pouco a ver com amor e era apenas para garantir a patrilinearidade (que a herança passasse de pai para filho). Na matrilinearidade todos (homens e mulheres) eram livres sexualmente, pois a herança passava de mãe para filho. Então, quando passamos para a patrilinearidade foi necessário controlar a mulher em um relacionamento monogâmico para garantir que o filho seria daquele homem. O casamento se torna sobre a sustentação da instituição família e não sobre amor.

Na Idade Média, a Igreja católica foi contra a erotização do casamento e a incorporação do amor romântico. Aos poucos, a Igreja passou a perceber que a ideia de casamento se sustentaria melhor se as pessoas casassem achando que era por amor romântico.

As ambições de Hera incluem marido e filho: “Hera quer tudo: ela quer uma casa confortável, segurança, um marido confiável, filhos maravilhosos, um lugar respeitável na comunidade e muitas vezes um emprego.” A Deusa Interior – Jennifer W. e Roger W.

Dentro do casamento a pessoa Hera quer parceria e igualdade, mas como faz parte da instituição casamento ter filhos, ela acabará sacrificando o mundo exterior (do poder e do social) pelo mundo privado (da família). Então, ela entrará na prisão do casamento e se frustrará.

Heras frustradas tentam controlar totalmente a vida dos filhos: escolher o que eles vestem, com quem andam; querem saber que horas chegam em casa; e controlá-los até mesmo depois que casam e saem de casa. Ela quer se realizar nos filhos pois está frustrada por não ter se realizado no marido.

FILHOS DE HERA NA MITOLOGIA

Ares e Hefesto são os dois filhos homens de Hera e eles refletem com precisão as questões não resolvidas no relacionamento de seus pais. Eles são espelhos de dois lados masculinos não satisfeitos da deusa (de seu animus).

Ares simboliza a guerra conjugal entre Zeus e Hera e é tido sempre como “filho da mãe” por seu pai Zeus. A hipermasculinidade fadada ao fracasso está identificada com a raiva destrutiva de Hera que ela não pode colocar para fora, e seu desprezo pela instituição do casamento. Porém, assim como Atena, Hera está presa em seu paradoxo com o mundo patriarcal: quer sua posição de poder dentro do sistema, porém essa estrutura não a permite ocupar tal posição.

Atena também é um arquétipo que possui um conflito forte com o mundo patriarcal. Leia mais sobre Atena aqui.

Hefesto é o polo da raiva e ciúmes de Hera por Zeus. Ele é o filho bastardo e aleijado de Hera. E representa o seu animus aleijado: a expressão das próprias energias masculinas dela que foram reprimidas. Hefesto representa o enorme, porém rejeitado, potencial de criatividade de Hera. Ele desafia a raiva de Hera com suas palhaçadas, pois é o bufão do Olimpo.

“Ele encarna uma alegre disposição de encontrar soluções criativas para a perene consternação interior de Hera diante da sua impotência em face de Zeus.” A Deusa Interior – Jennifer W. e Roger W.

Ares mantém uma relação sexual com seu feminino, assim como Hefesto mantém uma relação criativa com o seu.

O QUE ACONTECE QUANDO SEU MARIDO NÃO ESTÁ À ALTURA E NÃO POSSUI OS VALORES DE CARISMA, PODER E AMBIÇÃO QUE HERA BUSCA EM UM HOMEM?
  • 1ª reação: ela se torna Lady Macbeth. A pessoa Hera acaba manipulando o marido nos bastidores. E ele se torna um porta-voz das ambições dela no mundo. 
  • 2ª reação: ela canaliza a sua vontade por poder e intrigas na família. Então ela vai acossar o marido e oprimir os filhos. Como Hera só queria ter poder, ela destrói tudo por estar frustrada.
Referências:

"As Deusas e a Mulher" de Jean Shinoda Bolen.
"A Deusa Interior" Jennifer Barker Woolger e Roger J. Woolger.
https://carlalindolfo.wordpress.com/2010/02/27/os-arquetipos-das-deusas-e-o-feminino/
https://ipth.com.br/arquetipos-do-sagrado-feminino/
http://www.aartedeamadurecer.com.br/o-feminino-e-seus-arquetipos/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Hera

Para evitar que eu fique postando sempre a mesma coisa em todos os posts, eu recomendo a leitura desse post para entender melhor o contexto da minha pesquisa e em qual momento estou.

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